Limpinhos, cheirosos e bem vestidos.

15 12 2007

É com grande prazer que apresento um trecho de um conto, escrito por Reginaldo Cruz um grande amigo, que está de partida.

No final deste post existe um link com o arquivo do conto completo:
Obs: Todos os direitos autorais reservados ao autor.

UM SIMPLES COMERCIANTE

Falou-me que naquela época ele já era o Tito. Só que nas suas próprias palavras ainda era peixe pequeno, cheio de dúvidas, de medos. E como eu não respondia suas questões tomou coragem e assumiu de vez seu outro “eu”, com seu outro mundo. O mundo que segundo suas próprias palavras apesar das pessoas o chamarem de submundo, não tem nada de sub, e sim o mundo real há muito tempo. E que suas raízes são profundas com uma história de milhares de anos à frente da bondade. E explicava-me tudo com simplicidade de quem descasca uma laranja…Que ele é o mercador que sempre fora em todas suas vidas passadas, um mercador de produtos raros e proibidos e que na história da humanidade está cheio deles. Esses produtos são sempre mais valorizados, e enquanto houver alguém querendo pagar o preço irá ter alguém disposto a vender.

Não o conseguia interromper, pois ele não conseguia para de falar. Dizia que hoje se sentia mais livre sem ninguém para lhe dar ordens. Que entre tubarões não há hipocrisia, que nesse seu mundo tudo funciona como um relógio. Os contratos são cumpridos com a palavra. Não há cheque sem fundo que não acabe como um defunto, e que ao contrário da lei da sociedade a lei do submundo é muito mais rápida. Explicava-me que esse foi o maior motivo pelo qual ele mudou de mundo, pelas leis serem mais simples. É a velha lei do olho por olho, dente por dente, onde você faz a sua justiça com suas mãos, sem intermediários corruptos. É só você e sua consciência, é a lei da causa e efeito colocada em prática. Nesse mundo para você se dar bem tem que ser como os três macacos que nada ouvem, falam ou vêem. É a lei mais antiga, a lei da selva. E neste mundo ele é um leão ou um tubarão. Cansou de ser ovelha negra. Hoje é um imponente lobo de caninos ferozes e olhar soberano. Senhor de sua estepe que mata sem crueldade apenas mata para sobreviver.
Diz hoje não ter mais preconceitos, nem manias, tudo lhe parece ser justificável. Que para isso basta a pessoa ter nascido neste planeta ela terá motivo para fazer o que quer que seja. Basta querer fazer e pronto, depois contratar alguns advogados, comprar alguns juízes e pronto, é assim fácil e simples. Que o Brasil é um dos países mais prósperos nesta área, temos de tudo a venda é só chegar e comprar. Po exemplo me dizia ele: “o diabo compra mais almas aqui que em qualquer outro lugar. Ele é muito melhor negociante, seu escritório está com agenda lotada por mais de uma era. Seus advogados estão entupidos de pedidos, fala-se até em modernização para atender todas as causas aqui do Brasil, mais uma vez somos campeões mundiais”.

Mas logo após essas blasfêmias todas Tito fez o sinal da cruz e jurou nunca ter batido nessa porta. Ao contrário, sentia-se mais do que nunca próximo de Deus. Ajudava menores carentes, a comunidade, a família, os amigos e dizia que tinha muita gente de bem que sentia sua falta. Quando viajava as pessoas de bem diziam que ele estava certo. Que o padre logo após a reforma da fachada e altar da paróquia lhe garantiu que quando ele morresse seria velado como nunca ninguém fora naquela igreja dizendo :
– Tá vendo doutor, aqui já tá tudo arranjado!

Quando pensava em Deus dizia que ele saberia olhar para seu interior, já que os homens não sabiam. Deus saberia que não tinha escolha: ou era essa vida ou teria que vender sua alma. A sua era transparente como a água. Sentia-se reconfortado quando pensava que Deus era bom com ele. Se não fosse, não lhe teria dado tantas coisas e tanto poder. E me disse:
– Deus é muito meu amigo doutor.
Depois olhou para o canto da sala, também olhei. Também com um olhar vazio e rimos um da cara do outro sem saber que também estava Deus olhando para nós.
Quando lhe disse que sua escolha para ser livre o levara para cadeia ele riu, riu muito e depois disse:

– Formalidades doutor, formalidades… Não posso lhe explicar tudo mas vamos dizer que faz parte do caminho que escolhi, que em menos de uma semana estou fora daqui e que aqui se faz mais negócios do que nas ruas. Continuo mesmo aqui dentro sendo Tito, peixe grande. Saio daqui um pouco mais pobre mas muito mais forte. Nesse mundo a prisão fortalece, todos sabem disso, esse é o meu mundo hoje, aliás, nosso mundo. E eu vivo sem hipocrisia!
Suas palavras, sua heresia, sua sinceridade, me deixaram com cara de palhaço por alguns minutos. Realmente as suas explicações eram muito palpáveis, bastava ligar a TV e todos os dias vemos como o mal está no meio de nós, sempre escapando da justiça dos homens com um sorriso largo. E os bons e justos chorando com cara de otários, de fracos pedindo a Deus justiça, já que aqui, quem manda é o mal, bem vestido e cheiroso. Pensava nisso quando Tito me interrompeu:

– Bem doutor, cansei de tentar lhe dar uma justificativa. Cansei de buscar explicação para as coisas e atos, vivo hoje num mundo mais simples, mais lógico e real. É isso doutor! :
– Bem Tito, confesso que você me deixou um tanto quanto confuso e até que tens razão e coerência em muitas de suas convicções mas não acho que o mal venceu. Não acho que és tão tranqüilo assim como pintas. Eu sei que trocaria poder e dinheiro por uma vida na arte. E sendo hoje quem és, sei que o mundo onde está não tem bilhete de volta. Sinto muito, pois para suas perguntas não sou eu quem tem as respostas. Ninguém as tem, só você sabe as respostas. Tu criaste este mundo, só você sabe viver nele e o que eu posso dizer é obrigado em compartilhar desse mundo comigo, pois também sei que você é um solitário. Agora me despeço de ti sem saber se um dia iremos nos encontrar novamente.
Quando ia me levantando ele disse:

– Então doutor novamente fico sem alento escolhendo meu mundo solitário. Há! Há! Há! Engraçado, cada vez acredito mais que os sonhos são reais e que a realidade é feia. Solitário, há, há! Mas porém no topo! E quem quer lá chegar tem que se acostumar a estar só!

Ainda na delegacia quase já na saída o Sr. Dr. Delegado de delegacia da PF me chamou e perguntou se correra tudo bem, disse-lhe que sim e ele respondeu:

– Muito bem, muito bem. Depois nos falamos, pode se retirar!
Não entendi nada e saí dali confuso e confesso, um pouco triste .

Fim.

Limpinhos cheirosos e bem vestidos.

UltraG


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